Uso de IA e vídeos curtos preocupa na preparação para o Enem

Educadores alertam para impactos na concentração e no aprendizado dos estudantes

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Com a volta às aulas e a proximidade do Enem e dos vestibulares, professores e coordenadores pedagógicos chamam a atenção para uma mudança na rotina de estudos: o uso cada vez maior de ferramentas de inteligência artificial e de vídeos curtos.

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A preocupação não está no uso da tecnologia, mas na forma como ela é utilizada. Recursos que oferecem respostas prontas, resumos, fórmulas e modelos de redação podem facilitar os estudos, mas também fazer com que o aluno deixe de exercitar etapas importantes do aprendizado.

Na prática, o estudante pode conseguir uma resposta correta sem entender como o resultado foi alcançado. Esse comportamento é conhecido como terceirização cognitiva, quando parte do esforço de pensar, organizar informações e resolver problemas é transferida para uma ferramenta.

O impacto aparece nas provas

A dificuldade tende a ficar mais evidente em questões que exigem interpretação e raciocínio próprio. Na redação do Enem, por exemplo, não basta conhecer um modelo: é necessário compreender o tema, organizar as ideias e construir uma argumentação adequada à proposta.

O mesmo acontece em questões que apresentam situações diferentes das utilizadas durante a preparação. Quando o estudo é baseado apenas em fórmulas decoradas ou respostas prontas, o aluno pode ter mais dificuldade para adaptar o conhecimento a um problema novo.

Outro ponto de atenção é o consumo frequente de vídeos muito curtos. A exposição constante a conteúdos rápidos pode contribuir para diminuir a tolerância a atividades que exigem concentração por mais tempo, como ler textos extensos, interpretar enunciados e resolver exercícios com várias etapas.

Pesquisas analisam o uso da IA

O relatório Digital Education Outlook 2026, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), chama atenção para o que classifica como uma falsa sensação de domínio. Com a ajuda da inteligência artificial, o estudante pode produzir um trabalho de boa qualidade e confundir esse resultado com o aprendizado do conteúdo.

Um estudo com mais de mil estudantes do ensino médio na Turquia, publicado na revista PNAS, encontrou resultado semelhante. Alunos que tiveram acesso livre à inteligência artificial apresentaram desempenho até 48% maior durante os exercícios, mas tiveram resultado 17% inferior em uma avaliação realizada sem a ferramenta.

Já os estudantes que utilizaram uma versão da tecnologia desenvolvida para oferecer dicas e orientações, em vez de entregar respostas prontas, tiveram melhora de até 127% durante a prática e não apresentaram a mesma queda na avaliação.

Pesquisas sobre vídeos curtos também relacionam o uso intenso de plataformas desse tipo a dificuldades de atenção sustentada, justamente uma habilidade necessária para acompanhar provas longas, como o Enem.

Como usar a tecnologia sem prejudicar os estudos

A recomendação de educadores não é abandonar a inteligência artificial ou os conteúdos digitais, mas evitar que esses recursos substituam o esforço necessário para aprender.

A IA pode ser utilizada para tirar dúvidas, explicar um assunto de outra maneira, criar exercícios e ajudar na organização dos estudos. O estudante, porém, precisa continuar resolvendo questões, revisando os próprios erros, lendo conteúdos completos e escrevendo textos sem depender de modelos prontos.

Na reta final de preparação para o Enem e os vestibulares, equilibrar o uso da tecnologia com momentos de estudo sem consulta pode ajudar a desenvolver habilidades que serão exigidas no momento da prova.

Mais do que encontrar rapidamente uma resposta, o objetivo é conseguir compreender o problema, organizar o raciocínio e construir uma solução de forma independente.

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