Setembro Amarelo: psiquiatra de Poços explica quando mudanças na rotina merecem atenção

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Dormir mal por semanas, perder o interesse por atividades habituais, ter dificuldade de concentração ou se afastar das pessoas podem ser sinais de alerta quando essas mudanças persistem e começam a afetar a rotina. Segundo a psiquiatra Letícia Macedo, médica com mais de 20 anos de experiência e que atende adultos em Poços de Caldas, a avaliação deve considerar principalmente alterações no funcionamento habitual da pessoa.

“Na prática, o que chama atenção não é um sintoma isolado, mas uma mudança em relação ao funcionamento habitual da pessoa. Quando isso persiste, ganha intensidade ou começa a exigir um esforço cada vez maior para manter a rotina, é importante olhar com mais cuidado”, afirma.

O que merece atenção

Uma noite mal dormida, alguns dias de tristeza ou um período de maior irritação diante de um problema não significam, isoladamente, a presença de um transtorno mental.

De acordo com Letícia, três aspectos ajudam a avaliar quando uma mudança merece atenção: há quanto tempo os sintomas estão presentes, qual é a intensidade deles e quanto já interferem na rotina.

Dormir mal por semanas, perder o interesse por atividades que antes davam prazer, evitar o contato com amigos, apresentar dificuldade para se concentrar ou perceber queda no rendimento no trabalho ou nos estudos são situações que podem indicar a necessidade de uma avaliação profissional.

Esses sinais, isoladamente, não estabelecem um diagnóstico.

“Na avaliação clínica, não olhamos apenas se a pessoa está triste, ansiosa ou dormindo mal. Precisamos entender quando aquilo começou, como ela funcionava antes e o impacto que essa mudança está produzindo. Às vezes, por fora, a vida parece seguir normalmente, mas a pessoa está usando toda a energia disponível apenas para conseguir trabalhar, cuidar da casa ou cumprir compromissos. Esse sofrimento também precisa ser levado a sério”, diz a psiquiatra.

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O parâmetro, segundo ela, não deve ser a comparação com outras pessoas, mas a própria mudança de comportamento. Uma pessoa naturalmente mais reservada, por exemplo, não necessariamente apresenta um quadro de depressão. A atenção deve estar voltada para alterações persistentes em relação ao padrão habitual.

Quem costumava sair com frequência e passa a evitar encontros, perde o interesse por atividades de que gostava ou começa a ter dificuldade para manter compromissos que antes faziam parte da rotina pode estar diante de uma mudança que merece ser investigada.

Mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária em 2025

Parte do impacto dos transtornos mentais também aparece nos registros da Previdência Social.

Em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O número representa aumento de 15,66% em relação a 2024.

Em 10 de setembro, o INSS informou que, entre as concessões registradas em 2025, 166.489 estavam relacionadas a transtornos de ansiedade e 126.608 a episódios depressivos.

Os números correspondem a benefícios concedidos e não necessariamente a pessoas diferentes. Uma mesma pessoa pode receber mais de um benefício.

Os registros previdenciários também representam apenas uma parcela do cenário relacionado à saúde mental. Pessoas que enfrentam sofrimento psíquico, mas continuam trabalhando e não recorrem ao sistema de benefícios, por exemplo, não aparecem nessas estatísticas.

Pesquisa nacional busca ampliar diagnóstico sobre saúde mental

Para ampliar o conhecimento sobre a saúde mental da população brasileira, o país realiza pela primeira vez a Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil), levantamento do Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

O trabalho de campo começou em março de 2026 e já alcançou 197 municípios de 26 unidades da Federação. A previsão é reunir cerca de 10 mil entrevistas com adultos.

A pesquisa pretende avaliar a ocorrência de transtornos mentais, fatores associados ao sofrimento psíquico e dificuldades de acesso aos serviços de saúde mental. Os resultados ainda não foram divulgados.

Após a conclusão da coleta, os dados serão analisados para produzir um retrato nacional da saúde mental da população adulta e contribuir para o planejamento de políticas públicas e serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).

Poços tinha 1.074 pacientes aguardando primeira consulta com psiquiatra

Em Poços de Caldas, 1.074 pacientes aguardavam a primeira consulta com psiquiatra na rede pública municipal, segundo resposta encaminhada à Câmara Municipal em 31 de agosto, com informações da Secretaria Municipal de Saúde.

Outros 1.805 pacientes aguardavam consultas de retorno com médicos da rede municipal.

A fila de 1.074 pacientes não corresponde a uma fila dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, os CAPS não funcionam como uma fila ambulatorial única para primeira consulta psiquiátrica. O acesso ocorre por acolhimento, avaliação da situação apresentada e definição do cuidado adequado para cada caso.

A Secretaria também informou que os dados disponíveis não permitem calcular com segurança o tempo médio, mediano ou máximo de espera pela primeira consulta.

A prioridade de atendimento não é definida exclusivamente pela ordem de chegada. De acordo com a Secretaria, fatores como gravidade do quadro, situações de risco, condições clínicas associadas e vulnerabilidades podem influenciar a prioridade.

Os dados da fila não permitem estimar quantas pessoas têm transtornos mentais em Poços de Caldas nem concluir que esses quadros estejam aumentando. O número de primeiras consultas representa a demanda registrada por atendimento psiquiátrico na rede municipal.

Em 10 de setembro, a Secretaria Municipal de Saúde reforçou que o atendimento em saúde mental começa, sempre que possível, pelas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), que podem acolher e acompanhar os pacientes e fazer encaminhamentos quando necessário.

Na mesma publicação, Rafael Franklin, coordenador da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de Poços de Caldas, afirmou que não é necessário esperar o agravamento da situação para procurar atendimento. Atualmente, o município conta com três CAPS.

Quando procurar ajuda

Quando o sofrimento persiste ou começa a interferir na rotina, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo.

“Buscar ajuda não significa necessariamente receber um diagnóstico. A consulta é também um espaço para compreender aquele momento, avaliar o que mudou e decidir se existe necessidade de acompanhamento ou tratamento”, explica Letícia.

A avaliação considera a história da pessoa, o contexto em que as mudanças apareceram, a duração e a intensidade dos sintomas e o impacto provocado na vida cotidiana.

Familiares e amigos também podem contribuir nesse processo. Segundo a psiquiatra, pessoas próximas não precisam identificar sozinhas o que está acontecendo nem encontrar uma solução.

“O papel de quem está próximo é acolher, levar o sofrimento a sério e ajudar a pessoa a chegar ao atendimento quando ela não está conseguindo fazer isso sozinha”, afirma.

Quando há risco imediato

Ansiedade, depressão ou sofrimento emocional não significam, por si só, que uma pessoa esteja pensando em suicídio. O Ministério da Saúde considera o suicídio um fenômeno complexo, relacionado a diferentes fatores.

Ainda assim, falas sobre querer morrer, desaparecer, não ter mais motivos para viver ou tirar a própria vida devem ser levadas a sério. Nessas situações, a recomendação é acolher a pessoa sem julgamento e buscar ajuda.

Quando existe risco imediato, a pessoa não deve ser deixada sozinha enquanto o atendimento é acionado.

Como funciona o atendimento em Poços de Caldas

Na rede pública de Poços de Caldas, as Unidades Básicas de Saúde são a principal porta de entrada para o atendimento em saúde mental. As equipes fazem o acolhimento, acompanham os casos e encaminham os pacientes para serviços especializados conforme a avaliação realizada.

O município possui três Centros de Atenção Psicossocial:

  • CAPS Girassol: atende adultos em intenso sofrimento psíquico;

  • CAPS i Despertar: voltado para crianças e adolescentes;

  • CAPS AD Margarida: atende pessoas com necessidades relacionadas ao uso de álcool e outras drogas.

A espera pela primeira consulta com psiquiatra na rede municipal não corresponde ao atendimento realizado pelos CAPS. Nesses serviços, o acesso ocorre por acolhimento e avaliação das necessidades de cada pessoa.

Em situações de urgência ou emergência, a orientação é procurar um serviço de pronto atendimento ou acionar o Samu pelo telefone 192.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.

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