O que existe em comum entre as espadas que protegem os cortejos das congadas, os cantos que atravessam gerações e a música que hoje ocupa os palcos? A resposta está na ancestralidade, na memória coletiva e na capacidade que a cultura popular tem de se reinventar sem perder suas raízes. É a partir dessas conexões que o Giro Cultural – Conexões encerra sua segunda temporada, com um episódio dedicado às congadas, à religiosidade popular e às expressões musicais afro-brasileiras de Poços de Caldas.
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O terceiro e último episódio recebe Lilia Clementino, representante da quarta geração de uma família de congadeiros e uma das personagens ligadas à preservação dessa tradição na cidade, e Di Rapha, músico e compositor que carrega em sua trajetória as influências das congadas, do samba e das manifestações afroculturais e afroreligiosas.
Ao reunir essas duas histórias, o programa investiga como os saberes transmitidos entre gerações continuam presentes na música, na fé, nos rituais e nas manifestações artísticas contemporâneas. Mais do que registrar tradições, o episódio propõe um olhar sobre as pessoas que mantêm viva parte fundamental da identidade cultural de Poços de Caldas.
A edição marca o encerramento de uma temporada construída a partir dos encontros entre o tradicional e o urbano, entre as manifestações populares e suas reinvenções contemporâneas. Ao longo de três episódios, o programa percorreu histórias da Folia de Reis, da Catira, da viola caipira, do hip-hop e das culturas afro-brasileiras, reunindo personagens que ajudam a contar a história cultural da cidade a partir de suas próprias experiências.
Para Beatriz Aquino, idealizadora, apresentadora e roteirista do Giro Cultural, a proposta é reconhecer a arte como uma expressão da vida cotidiana, que não se limita aos espaços institucionais ou aos artistas profissionais.
“A arte não é uma coisa de artista. A arte é uma coisa do povo, do humano. Ela é uma ponte essencial entre o ser e o sentir e existe para que a gente possa se reconhecer. Nas tradições populares, essa arte está nos cantos, nas vestimentas, nas máscaras, nas fitas, nas bandeiras e na maneira como as pessoas vivem e ritualizam sua fé”, afirma.
Quatro gerações de congada, memória e resistência
A história de Lilia Regina Clementino se confunde com a permanência das congadas em Poços de Caldas. Integrante da quarta geração de uma família de congadeiros, ela começou a participar dos cortejos ainda na infância, quando desempenhava a função de barqueira, guiada por sua avó, Orfelina da Conceição.
Com o passar dos anos, assumiu o papel de espadista, função ligada à proteção da congada, tornando-se também uma das responsáveis pela continuidade de uma tradição que reúne religiosidade, música, dança, memória e pertencimento.
Sua atuação ultrapassou os cortejos. Lilia foi presidente da Associação de Ternos de Congos e Caiapós de São Benedito, desempenhando um papel importante na organização e na produção das atividades dos grupos de cultura popular da cidade.
Sua participação no Giro Cultural recupera não apenas uma trajetória individual, mas também a história de famílias que, ao longo de gerações, mantiveram vivas manifestações culturais afro-brasileiras por meio da transmissão de saberes, da oralidade e da participação comunitária.
Ao dar visibilidade a essa experiência, o episódio também evidencia o protagonismo das mulheres na preservação das tradições populares e a importância das relações familiares para a continuidade de práticas culturais que atravessam o tempo.
Das congadas aos palcos: a ancestralidade na música de Di Rapha
Se na trajetória de Lilia a ancestralidade se manifesta nos cortejos e na preservação dos rituais, na história de Di Rapha ela também encontra expressão na música contemporânea.
Músico e compositor, Di Rapha possui raízes familiares nas congadas e na história das escolas de samba de Poços de Caldas. Sua atuação artística transita entre apresentações musicais, manifestações afroculturais e afroreligiosas, estabelecendo conexões entre as tradições populares e diferentes linguagens da música brasileira.
O artista foi diretor da Associação Afroancestral e integrou artisticamente o projeto Tributo aos Orixás, experiências que reforçam sua relação com a valorização da cultura negra e das expressões de matriz africana.
Sua trajetória também ultrapassou os limites do Sul de Minas. Em projetos realizados na cidade de São Paulo, dividiu o palco com nomes reconhecidos nacionalmente no samba e no pagode, como Salgadinho, Adriana Ribeiro, Doce Encontro e Arlindinho, entre outros.
Com composições gravadas por diferentes artistas, Di Rapha também alcançou emissoras de rádio em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e cidades da região.
No episódio, sua presença contribui para mostrar que as tradições afro-brasileiras não pertencem apenas ao passado. Elas continuam alimentando a criação artística, influenciando sonoridades e produzindo novas formas de expressão.
Um registro da cultura que permanece viva
Ao encerrar a segunda temporada, o Giro Cultural – Conexões consolida sua proposta de construir pontes entre diferentes gerações e manifestações culturais, mostrando que a tradição não é uma herança imóvel, mas uma experiência que se transforma a cada vez que é vivida, compartilhada e recriada.
A temporada começou com as expressões da cultura popular ligadas à Folia de Reis, à Catira e à viola caipira. No segundo episódio, aproximou o hip-hop da ancestralidade e da resistência negra, com a participação do rapper Semeador e da educadora Lucia Vera de Lima. Agora, chega ao encerramento com as congadas e a música afro-brasileira, ampliando o retrato das múltiplas identidades culturais de Poços de Caldas.
Para Beatriz Aquino, a relação entre arte, religiosidade e vida comunitária é fundamental para compreender a força dessas manifestações.
“A religião cumpre seu papel como instrumento de fé, mas a liturgia dessa fé, os preparativos, as vestimentas, os cantos e as representações também são arte em plena ação. É o povo que cria, mesmo atravessado pelas imposições e influências da história, a imagem de si mesmo”, explica.
Mais do que uma série de entrevistas, o projeto pretende deixar um registro audiovisual das histórias, dos personagens e das manifestações culturais que ajudam a construir a memória coletiva da cidade.
“Com o Giro Cultural – Conexões, cumprimos nosso papel não apenas ao realizar um registro histórico dessa ritualística, mas também ao mostrar as pontes existentes entre o tradicional e o urbano, entre o legado de ontem e a expressão de hoje. Poços de Caldas ganha mais um espelho de sua força e de sua beleza, um reflexo de sua tradição e também da força de sua contemporaneidade”, conclui Beatriz.
A segunda temporada do Giro Cultural é viabilizada pelo Edital de Incentivo à Cultura, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Poços de Caldas, com incentivo cultural da Alcoa, captação da Carvalho Agência Cultural e apoio da TV Poços, Acervo Móvel, Aventurina e Thunder Beauty.
Serviço
Giro Cultural – Conexões | 2ª temporada — Episódio 3 (encerramento)
Exibição: TV Poços
Online: canal Giro Cultural no YouTube
Formato: temporada com 3 episódios
Convidados: Lilia Clementino e Di Rapha
Ficha técnica
Idealização, apresentação e roteiro: Beatriz Aquino
Produção audiovisual, edição e curadoria: Robson Américo
Produção executiva e direção de arte: Danielle Vilas Bôas / Mió Cultural
Fotografia still: João Paulo Ferreira e Grazi Ferreira
Designer gráfico: João Paulo Ferreira
Assessoria de imprensa: Jéssica Balbino
Realização: projeto viabilizado pelo Edital de Incentivo à Cultura, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Poços de Caldas. Incentivo cultural da Alcoa. Captação da Carvalho Agência Cultural. Apoio: TV Poços, Acervo Móvel, Aventurina e Thunder Beauty.






