Falar sobre a presença das mulheres na política é, antes de tudo, um exercício de consciência histórica. Não se trata apenas de reconhecer avanços numéricos ou simbólicos, mas de compreender as camadas profundas que atravessam essa presença: disputas ideológicas, contradições internas e, sobretudo, a pluralidade que constitui o ser mulher.
Há, ainda hoje, uma expectativa quase automática de que toda mulher que ocupa um espaço de poder represente, de forma homogênea, os interesses de todas as mulheres. Essa ideia, embora bem-intencionada à primeira vista, revela um equívoco perigoso: o da universalização da experiência feminina. Mulheres não são um bloco único. Somos atravessadas por classe, raça, território, religião, formação política e valores ideológicos distintos. Ignorar isso é apagar a complexidade da nossa própria existência.
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A representação política feminina, portanto, não pode ser romantizada. É preciso reconhecer que há mulheres em espaços de poder que defendem projetos que, muitas vezes, não dialogam e, em alguns casos, até confrontam pautas historicamente construídas pelos movimentos feministas. Isso não as torna menos mulheres, mas evidencia que gênero, por si só, não garante alinhamento político ou compromisso com determinadas agendas.
E é justamente nesse ponto que a consciência política se torna indispensável. Não basta celebrar a presença feminina; é necessário problematizar qual presença, a serviço de quê e de quem. A maturidade democrática exige que sejamos capazes de sustentar essa análise sem cair em simplificações ou disputas vazias.
Por outro lado e com igual importância não podemos permitir que essa crítica apague ou deslegitime a luta histórica das mulheres que vieram antes de nós. As feministas que enfrentaram silenciamentos, violências e exclusões abriram caminhos fundamentais para que hoje possamos estudar, trabalhar, votar, ocupar espaços públicos e, ainda que timidamente, disputar poder.
É graças a essas mulheres que hoje temos voz. É sobre os ombros delas que seguimos caminhando.
Reconhecer que nem todas as mulheres representam todas as mulheres não enfraquece a luta feminina pelo contrário, a fortalece. Isso nos convoca a um posicionamento mais crítico, mais responsável e mais comprometido com aquilo que, de fato, desejamos construir enquanto sociedade.
A pluralidade entre mulheres não deve ser motivo de fragmentação, mas de reflexão. E a consciência política é o que nos permite diferenciar presença de representatividade, identidade de projeto, e símbolo de compromisso real.
Seguimos, portanto, entre avanços e tensões. Mas seguimos com memória, com crítica e com a responsabilidade de honrar o passado sem deixar de disputar o futuro.
Por Maria Cecília Figueiredo Opípari – Cientista Social, pós-graduada em Gestão Pública e graduanda em Psicologia, atuante nas áreas de políticas públicas e questões sociais








