A inauguração da galeria em homenagem às vereadoras na Câmara Municipal de Poços de Caldas é, sem dúvida, um marco simbólico importante. Trata-se de um reconhecimento necessário às mulheres que, ao longo da história, ocuparam um espaço que sempre lhes foi negado ou dificultado: o da política institucional.
Na legislatura de 2017, umas das que fui vereadora até tentei, apresentei o projeto de resolução 9/2017, mas infelizmente não tive o apoio dos “colegas”. Mas hoje, ver essa galeria se tornar realidade, pelas mãos do vereador Flavinho, com o apoio dos demais, me traz alegria e esperança. Porque as ideias, quando são justas, encontram seu tempo de florescer.
No entanto, ao olharmos com mais atenção para essa homenagem, um dado salta aos olhos e nos interpela com força: em meio a tantos homens, em números absurdamente maiores em quantidade que já passaram pelo Legislativo municipal, apenas 12 mulheres conseguiram ocupar esse lugar. Esse número não é apenas estatística: ele revela uma estrutura histórica de exclusão, desigualdade, silenciamento e machismo.
Celebrar essas 12 mulheres é também reconhecer o quanto elas precisaram resistir, insistir e enfrentar barreiras que ainda hoje permanecem. A presença feminina na política não é apenas uma questão de justiça, mas de qualidade democrática. Uma Câmara que não reflete a diversidade da sua população é, inevitavelmente, limitada na sua capacidade de compreender e atender às demandas sociais.

Não basta afirmar, em falas públicas ou redes sociais, que se defende a participação das mulheres na política. O compromisso com essa pauta se expressa também nos gestos concretos, na presença, no reconhecimento e no respeito. Prestigiar momentos como esse não é um favor, é uma responsabilidade política. E não me referi só a essa sessão, mas as audiências publicadas, entre outras ações voltadas para mulheres.
O que se evidencia é uma disputa de narrativas: de um lado, discursos que proclamam apoio às mulheres; de outro, atitudes que, na prática, esvaziam esse compromisso. E é justamente nesse descompasso que se perpetua o desprestígio às mulheres na política.
A galeria das vereadoras é um passo importante, mas ela não pode ser apenas um espaço de memória. Precisa ser também um chamado à ação. Que sirva como lembrete permanente de que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que a participação feminina deixe de ser exceção e se torne regra. Que essa galeria não seja apenas um espaço na parede, mas um convite permanente: que mais mulheres ocupem, transformem e escrevam seus nomes na política de nossa cidade.
Mais do que homenagens, as mulheres precisam de espaço, de condições reais de participação e, sobretudo, de respeito.
Porque democracia de verdade só existe quando todas as vozes têm lugar.
Seguimos na luta por equidade, respeito e condições de igualdade com afeto e esperança.
Texto: Maria Cecília Figueiredo Opípari (Ciça) – Cientista Social, ex-vereadora e graduanda em psicologia






